Um papo sobre Design Thinking: cultura de inovação e o novo cenário da comunicação


Esta semana o escritório do Rio de Janeiro recebeu a visita de Fernanda Colaço, consultora de inovação especializada em Design Thinking. Ela falou com a equipe Approach sobre metodologia de inovação e debateu conosco o cenário atual do mercado de comunicação. Confira a entrevista:

1) O mercado de comunicação está em um momento de virada, em que veículos tradicionais estão sendo colocados à prova e há muitas iniciativas de comunicação independente e colaborativa. Pela sua experiência com projetos de start ups, por que este segmento tem tanta dificuldade de encontrar um modelo de negócios que responda ao atual cenário?

A inovação se dá na interseção entre as necessidades dos usuários, a viabilidade tecnológica e a capacidade de gerar valor ao negócio. Acredito que o mercado de comunicação está enfrentando dificuldades em encontrar um modelo de negócio adequado porque a evolução tecnológica que desequilibrou a relação entre estes três fatores. Isso gera novos anseios, frustrações e expectativas, além de modificar o valor da informação.

A partir de um projeto de Design Thinking, seria possível rever as necessidades e desejos de cada stakeholder neste novo cenário, entender o que seriam propostas de valor e como estas se relacionam com o atual modelo de negócios. Naturalmente as mídias menores, start ups, têm mais leveza e agilidade para testar e errar de forma rápida – uma vantagem enorme frente a mídias de grande porte que precisam de um esforço maior para alterar a forma com que prestam seus serviços. É esta flexibilidade que faz com que tantas start ups sejam bem sucedidas. A ascensão meteórica de marcas como Instagram, Netflix e Mídia Ninja se dá justamente pela escala da troca de informação viabilizada pela tecnologia.

Ainda sim, a dificuldade em estabelecer um modelo de negócios é relativa. O Facebook, por exemplo, adotou estratégias assertivas para se tornar lucrativo, enquanto a Mídia Ninja não tem foco comercial. Isso se da tanto pelo objetivo final da empresa quanto pela falta de compreensão das reais necessidades dos usuários e das formas de se gerar valor a partir destas.

 

2) A própria forma como a informação se constrói e se dissemina ganhou uma nova dinâmica, mais horizontal. Na sua visão, como as empresas devem repensar sua comunicação de marca para criar relações mais relevantes com seus públicos?

Sabemos que a dinâmica mudou – não são necessariamente as marcas que determinam as tendências. As pessoas assumiram um papel muito ativo e participativo, e esse formato horizontal de comunicação está se refletindo em praticamente todos os segmentos de mercado.

As relações relevantes passam muito pela identificação do público com a marca e, para alcançar isso, as empresas devem adotar uma postura mais sincera e integrada ao público – como se, em perfeita sintonia, um fosse criado pelo outro formando um ciclo.  Mas a verdade é que não existe receita de bolo, e é nesse momento que o Design Thinking se prova uma ferramenta útil, pois através da imersão e dos insights gerados ao longo da análise, conseguimos tornar evidente a forma com que cada marca deve proceder para alcançar seu objetivo.

 

3) O Design Thinking estimula a repensar processos de produção ou gestão, às vezes redefinindo a forma como a empresa vê as premissas de mercado ou apresenta sua proposta de valor. Que postura uma empresa deve adotar para lidar com iniciativas inovadoras de seus colaboradores de forma ordenada?

A capacidade de colaboração e a tolerância ao erro são duas prerrogativas do Design Thinking, mas a forma como cada empresa lida com esses fatores varia largamente de acordo com a cultural empresarial, o propósito da marca, o porte do negócio, entre outros aspectos.

Iniciativas inovadoras tendem a ser mais produtivas e bem sucedidas em empresas que estimulam a colaboração. É preciso que os colaboradores se sintam a vontade para perguntar, questionar, e influenciar o trabalho uns dos outros, entendendo que juntos sempre pensamos melhor. Aliás, quanto mais distintas as perspectivas, mais complementares e mais rico o trabalho. Por isso, empresas devem promover espaço e tempo para troca sempre que possível. 

A tolerância ao erro é um ponto em que empresas frequentemente falham – invés de aplaudir a tentativa, independente do resultado, condenam o erro. Dessa forma, o funcionário passa a ter medo de tentar e começa a trabalhar apenas naquilo que é pedido, da forma pré-estabelecida, o que é péssimo tanto para o desenvolvimento do profissional quanto para o desenvolvimento do negócio. É errando que se aprende e quanto mais rápido erramos, melhor.

Metodologias como o Design Thinking servem justamente para guiar o colaborador ao longo processo e permitir à empresa o acompanhamento dos resultados através de métricas estabelecidas em cada projeto. Uma forma relativamente simples de cultivar um ambiente de inovação é proporcionar reconhecimentos periódicos das ideias e mudanças implementadas por iniciativa própria dos colaboradores, além de ressaltar os benefícios trazidos pelas ideias. Isso incentiva os funcionários a se manterem envolvidos e pró-ativos.

Como design thinker, acredito que cada cenário ou situação merece ser estudado e analisado individualmente para, então, estabelecer formas de estimular uma cultura de inovação que se adequem ao perfil de cada empresa.

Entrevista: Fernanda Castelo Branco

Fotos: Daniel Oliveira