Nas últimas décadas, a discussão da temática de conservação da Amazônia e da exploração de seus recursos ficou restrita, principalmente, aos públicos que têm relacionamento direto com esse Bioma: a academia, com seus estudos científicos; as empresas privadas, com as atividades de exploração dos ativos naturais; a imprensa especializada, exercendo papel de fiscalização e de formação de opinião; e as ONGs, com seus trabalhos exaustivos, porém insuficientes nesses territórios.

No entanto, episódios recentes, como a crise hídrica e energética que ainda assolam o país, além de escassez de recursos naturais em geral, deram à Região Amazônica bastante visibilidade. Esses acontecimentos levaram à sociedade civil organizada o entendimento claro que existe, sim, conexão entre esses fenômenos – é o caso da estiagem no sudeste do país e o desmatamento crescente da floresta, por exemplo. Hoje, há um consenso de que, se nada for feito pela conservação de nossa biodiversidade, bem como das comunidades que vivem nos estados que integram a Amazônia, o mundo colherá escassez em todos os sentidos: de água a soluções científicas e tecnológicas para os dilemas humanos.

O Governo Federal, por meio do Ministério do Meio Ambiente (MMA), tem feito esforços para coibir práticas irregulares no acesso à biodiversidade e mapear iniciativas que estão dando certo a fim de replicá-las em todo o território da Amazônia. Mas sabemos que não é suficiente, o desafio é enorme. Lidamos, por exemplo, com o problema da extensão desse bioma e com a falta de recursos financeiros e humanos. Para não falar das especificidades na gestão de pessoas, muitas delas vivendo em áreas isoladas e sob a ameaça dos “capangas” desse capitalismo selvagem que explora irrefreada e ilegalmente terras que deveriam ser protegidas.

O poder da escala e a comunicação integrada

Nossa perspectiva, enquanto profissionais de comunicação para sustentabilidade, é que, enquanto os trabalhos já desenvolvidos no território não evoluírem e ganharem escala, ficaremos atrasados em relação ao avanço da ilegalidade e da insuficiente atuação de alguns órgãos naquela região. Enquanto não tivermos um sistema contínuo de monitoramento e um inventário do que está acontecendo, integrado a  outras redes do bem, e não dermos visibilidade dessas questões à sociedade como um todo, não conseguiremos avançar na resolução efetiva dos problemas na Amazônia. É necessário, parafraseando o lema da ONG Rio de Paz, “dar voz aos sem voz e visibilidade aos invisíveis”. Não basta fazer o bem; isso deve ser percebido a fim de sensibilizar e provocar um engajamento real dos mais diferentes públicos de interesse.

É importante dizer que, embora as práticas ilegais nesses territórios sejam de difícil controle, o país conta com excelentes iniciativas, de entes públicos e empresas privadas, relacionadas à conservação de áreas protegidas, manejo florestal, adequação de protocolos internacionais a comunidades indígenas, de educação e saúde, e muitas outras áreas de desenvolvimento territorial, sempre com o objetivo de construir um legado consistente para a conservação do bioma e, principalmente, para as comunidades locais.

Empresas de diversos segmentos têm trabalhado com afinco em regiões isoladas do país, levando capacitação profissional, tecnologias sociais e infraestrutura de ponta. Soluções que, a rigor, deveriam fazer parte dos deveres de Estado, mas que por muitos fatores acabam não chegando às comunidades menos favorecidas. Muitas delas entenderam que não é mais possível atuar sem considerar os aspectos do que chamamos de valor compartilhado. Se querem perenidade nos negócios, devem lucrar e, ao mesmo tempo, gerar impacto positivo em toda a sua cadeia de valor. O papel da iniciativa privada nesse sentido é de ir além da filantropia tradicional.

Como gestor de comunicação que tem lidado com a disseminação desta temática há alguns anos, entendo que qualquer que seja a iniciativa de desenvolvimento sustentável, sobretudo em lugares isolados, deve contar necessariamente com uma comunicação que busque, em última análise, o engajamento dos públicos mais adequados – sejam locais, regionais ou nacionais. Todos são importantes na evolução das etapas de um planejamento. A estratégia de comunicação deve ser construída a partir do desenvolvimento de um conceito territorial, considerando aspectos sociais, ambientais, econômicos, culturais e até políticos, que poderão ser desdobrados em quaisquer ações de comunicação e de relacionamento.

Nossa experiência no tema nos leva a investir principalmente nos públicos que ajudarão a construir, em escala, a opinião crítica em determinado projeto, e a perspectiva deve ser sempre voltada para levar o conhecimento de um problema à sociedade. Não podemos perder esse foco. Esse é um primeiro passo para enfrentar dilemas enraizados de sustentabilidade, como a histórica incompatibilidade de hidrelétricas e a demarcação de terras indígenas, a Lei da Biodiversidade, que regula a pesquisa e o acesso de organizações aos ativos da Amazônia, e que foi sancionada recentemente pela Presidente Dilma, entre tantos outros assuntos.  

O contato com diversas organizações que lidam diariamente com temas relacionados às mudanças climáticas, manejo sustentável, energia renovável, direitos humanos e consumo consciente, entre outros, nos traz uma responsabilidade enorme em nosso papel de comunicadores, mas também nos faz enxergar além dos problemas – sempre com a pegada positiva de quem começa cada projeto na expectativa de ser um agente de transformação de uma realidade muitas vezes distante e esquecida pela sociedade.

 

Leonardo Aguilar
Gerente de Comunicação para Sustentabilidade