Há algumas semanas, o Lancenet divulgou no Facebook trechos do treinamento do Vasco da Gama e numa das cenas o técnico pergunta a um determinado jogador se ele saberia fazer o que vinha sendo treinado. A resposta: “Sabo”. A risada em campo foi geral e, claro, a imagem espalhou-se nas redes sociais e virou notícia. Não existe cena mais comum do que atletas, de diferentes modalidades, bicarem a língua portuguesa em coletivas ou entrevistas ao vivo. E dá-lhe “a gente somos”, “nós vai”, “samos um grupo forte”. Mas como isso pode acontecer se nas escolinhas uma das regras mais rigorosas proíbe de jogar os meninos com notas ruins no boletim? Porque tudo não passa de lero-lero.

A verdade é que quando um craque mirim é identificado os pais o retiram da escola para “investir na carreira”, o tratam como a galinha dos ovos de ouro. Muitos educadores defendem que o futebol, por sua popularidade e importância na cultura nacional, deveria invadir as salas de aula, ser tratado como disciplina, fazer parte do currículo escolar.

O futebol movimenta milhões e os jogadores são seus principais garotos propaganda. Então, expliquem-me porque outro dia um craque do São Paulo, um dos clubes mais estruturados do país, pisoteava a língua portuguesa durante uma entrevista coletiva? Os clubes não deveriam preocupar-se com isso? Nenhum diretor ou conselheiro assiste essas aberrações na tevê ou ouve nas rádios? Os cartolas não deveriam tirar uma parcela dos milhões envolvidos em produtos licenciados, venda de camisas, renda, transmissão de tevê, patrocínio etc. etc. etc. e investir na educação de seu maior patrimônio? Mas, não, ao invés disso, as estrelas são empurradas para a frente dos microfones sem qualquer treinamento prévio.

Além dos clubes, os patrocinadores não deveriam ter a mesma preocupação? Nenhum dono de empresa ou diretor de marketing percebe que um atleta, com a sua marca estampada no peito, ou nas abas dos bonés, falando “a gente somos” é uma tremenda bola fora? Essas empresas dão de ombros para a educação? E a família, o pai, um primo, um tio, não poderiam dar um conselho? E o próprio jogador, não se interessa pelo crescimento profissional?

Na verdade quando o dinheiro entra já tem destino certo: carrões, cortes de cabelo modernosos e tatuagens cobrindo o corpo. Para que mais? Para que estudar se a conta bancária está gorda? Esses mesmos jogadores são convocados para a seleção brasileira e o tratamento continua igual. A Confederação Brasileira de Futebol também não se importa quando um atleta fala errado nas entrevistas. O futebol tira do tráfico, sim, salva muitas crianças do vício, mas e a segunda parte, e o investimento na educação? O Brasil é o país do faz de conta e até o hino nacional os atletas fingem cantar. 

Por Sergio Pugliese
Sócio-diretor da Approach Comunicação