Por Mário Cesar Filho

Depois de curtir como espectador de duas edições do festival (2011 e 2015), desta vez tive a oportunidade de trabalhar na equipe de Assessoria de Imprensa do Rock in Rio 2017. E que experiência!

Fazer parte do time Rock in Rio é sem dúvida umas das experiências mais marcantes na carreira profissional de qualquer jornalista. Seja na cobertura do evento ou nos bastidores, assessorando a imprensa, estar nesse festival é participar de uma mega produção que já faz parte do calendário carioca.

A começar pelos preparativos. Acompanhamos o passo a passo da construção de um evento de grandes proporções. Os números mostram isso. A nova cidade do Rock ocupou uma área total de 300 mil m², que só de área de público equivaleu ao mesmo espaço total da edição anterior, com 150 mil m². Foram esperados 100 mil espectadores por dia, com total de 700 mil, sendo 400 mil só de turistas. Cerca de 16 mil trabalhadores circularam pela Cidade do Rock e a área Vip tinha capacidade para receber até 5 mil convidados por dia.

Foram sete dias intensos. Muitos quilômetros de caminhada embaixo do sol, que esteve presente todos os dias do festival, e a sensação de que toda a cidade do Rio respirava o aroma do “rock´n roll”. Mesmo diante de ataques de criminosos em algumas favelas da cidade, como na Rocinha, na sexta-feira, dia 21, interditando importantes vias de acesso à Zona Oeste, o evento não parou.

Foram 270 veículos credenciados, o que fez a sala de imprensa ser um ambiente bem movimentado todos os dias. Era ali que trocávamos ideias, vendíamos as pautas do dia, entregávamos os coletes aos fotógrafos e, claro, parávamos para descansar um pouco e (re)abastecer o corpo. O pit do Palco Mundo era um lugar bem disputado pelos fotógrafos, como já se esperava, mas os brinquedos talvez foram tão concorridos quanto, a ponto de a lista com reserva de horário para andar na tirolesa esgotar rapidamente.

Nesta edição, três grandes novidades chamaram atenção do público: Rock Street África, Digital Stage e Game XP. O ritmo africano atraía a curiosidade de quem passava pela Rock Street, espaço que trouxe para o evento um pouquinho da cultura africana. Já as duas arenas do Game XP ficaram lotadas, com disputas de jogos eletrônicos e muitas opções de games espalhados. O sucesso foi tanto, que o evento ganhará uma edição exclusiva em 2018, no mesmo local.

Como estamos vivenciando a Era Digital, nada mais emblemático que os influenciadores digitais ganharem um espaço exclusivo. E o palco da Digital Stagerecebeu boa parte desses famosos internautas que conquistam milhões de seguidores em seus perfis nas redes sociais e canais do YouTube. Por lá, passaram Christian Figueiredo, Whindersson Nunes, Pyong, Felipe Castanhari, Maurício Meirelles, Fit Dance e tantos outros nomes que, confesso, só descobri por conta do evento. Isso só reforça a percepção que esses influenciadores não são chamados assim à toa. Eles falam diretamente com seu grande público, principalmente os jovens e, independentemente do conteúdo, ganham força como novos e importantes comunicadores.

Na Rock District, o espaço era voltado para shows mais intimistas, o que despertou o público de passagem. E foi lá que fiquei boa parte do festival. Minha função basicamente foi receber a imprensa e cobrir as atrações do palco, além de buscar personagens que curtiam os shows. Tive o reforço de três voluntárias, estudantes de Relações Públicas, que foram fundamentais na apuração de depoimentos.

Entre as boas histórias de personagens vindos de vários estados brasileiros, algumas delas valem contar aqui. No Dia Mundial de Doação de Medula Óssea, comemorado dia 16/09, o festival promoveu um encontro emocionante entre o doador Marcus Vinícius e a receptora Maria Fernanda, de 10 anos, que teve leucemia e recebeu o transplante de medula. Eles só se conheciam no papel, e pela primeira vez puderam se encontrar. O palco da música foi palco da conscientização para alertar sobre a importância do cadastro para ser um doador de medula óssea (veja reportagem da GloboNews).

Mas o palco também trouxe histórias de bastidores, como o encontro dos irmãos Rogério Flausino e Wilson Sideral, que cantaram Cazuza, com a presença de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza. “Lembro do show de 1985 que Cazuza fez no festival, período que o Brasil comemorava a volta da democracia. Eu vivo a memória do meu filho e sempre me emociono”, disse Lucinha. Para Flausino, cantar Cazuza no Rock in Rio teve um simbolismo único: “nossos heróis tocaram nesse palco. É um momento de gratidão. Estamos esperando um país melhor e acredito que a música tem muito esse poder de transformar. O Cazuza tinha essa poesia de explosão. Estou muito feliz em homenageá-lo, ainda mais tendo a presença da Lucinha ao nosso lado no palco”, disse o cantor.

Aliás, o festival teve um clima também de manifestação, pois em todos os shows o coro “Fora Temer” era ecoado, tanto pela plateia quanto pelos artistas no palco. As mensagens de revolta contra o atual governo, a violência na cidade, a exploração da floresta amazônica, o preconceito... tudo isso foi dito, cantado e ovacionado pelo público.

O Rock in Rio também tem essa missão de dar voz a todos que querem se expressar de alguma forma. Ali, não é apenas o artista que fala, mas o público também. E participar desse momento foi inesquecível. Mesmo com ingresso caro para a maioria, o festival é um evento importante para cidade. Ele vem provar que a música une de verdade as pessoas, expressa sentimentos e, sem dúvida, faz as pessoas viverem um momento feliz. Sim, a música tem o poder de transgredir e de transformar.

 Até 2019.