·         Cintia Grehs Beck

 

Corte de custos, publicidade caindo, leitores sumindo. Esta é a realidade dos principais jornais e revistas do mundo nos últimos anos. Uma realidade que fez muitos veículos fecharem as portas. Em 2016, jornais brasileiros perderam 162 mil de tiragem e 13 veículos de comunicação foram fechados ou deixaram de circular em papel no Brasil, Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, Gazeta do Povo de Curitiba, Correio de Uberlândia. Isso sem falar em onlines, rádios e TVs, que passaram por cortes. No resto do mundo, o cenário não é diferente.

O mercado da comunicação está em xeque. A qualidade da informação também. Como competir com a velocidade da internet, com informações que viralizam nas redes sociais, com influenciadores, youtubers e blogueiros gerando toneladas de conteúdo que circulam nas redes, com opiniões que influenciam as pessoas e mudam comportamentos? Neste cenário, boatos plantados ganham força de verdade ao serem compartilhados. Existe também uma lógica mercantilista nesta prática: alguns sites se especializam na disseminação de conceitos falsos na busca por audiência. Afinal, quanto mais visualizações, mais o site vende anúncios. É uma prática que cresce de maneira assustadora.

O resultado? As pessoas não sabem mais em quem acreditar. Lemos fragmentos. Recortes. Comentários formam a nossa opinião. Informações circulam, mas quem sabe a fonte? Ou melhor, quem se importa? 

Os veículos mais tradicionais acabam perdendo. Afinal, ninguém mais espera o dia seguinte para se atualizar, muito menos uma semana para ler uma matéria na revista. O mundo exige atualização constante e fatos novos para alimentar os comentários e discussões online. Ninguém mais tem tempo para analisar e até questionar se algo compartilhado é realmente verdadeiro.

E, nesta terra de ninguém, as notícias falsas ganham espaço. O alerta veio com a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos no ano passado, quando Trump acusou a mídia norte-americana de utilizar notícias falsas para prejudicar sua campanha. Segundo dados do Buzzfeed, entre agosto e 8 de novembro, data da eleição americana, as notícias falsas tiveram 8,7 milhões de compartilhamentos no Facebook, enquanto as notícias convencionais, 7,3 milhões.

Agora, o fenômeno chama a atenção de países da União Europeia onde o acirramento de conflitos ideológicos, religiosos e políticos tem transformado a região em um barril de pólvora prestes a explodir. A faísca pode vir justamente das notícias falsas. A reação já começou com um processo de checagem de informações. Na França, 37 veículos de imprensa criaram recentemente uma ferramenta para identificar e combater notícias falsas na internet. O Google e o Facebook já assumiram parte de sua responsabilidade na disseminação de conteúdos falsos e firmaram uma parceria com a Poynter, empresa da Flórida que incentiva programas de checagem de dados. Se não conseguirem barrar, ao menos vão alertar os usuários sobre a falta de credibilidade do veículo. Outra iniciativa veio do fundador do eBay, Pierre Omidyar, que vai destinar US$ 100 milhões para combater as notícias falsas. O primeiro a receber parte da verba será o International Consortium of Investigative Journalists (ICJI), que apurou o caso Panama Papers. Com esta iniciativa, o multimilionário quer contribuir para que os cidadãos se engajem com questões delicadas e que podem mudar destinos de nações.

Estes movimentos, ainda tímidos, poderiam ser indícios do ressurgimento do bom jornalismo, aquele de fato, que vai atrás da notícia não óbvia e desvenda esquemas, ganha prêmios, conta histórias que viram filmes, como Spotlight? Esperamos que sim.

Este é o jornalismo que queremos. É esta a vocação dos jovens que ingressam em uma faculdade de comunicação. A dura realidade do mercado de trabalho transforma o sonho e o encanto em decepção: o espaço que resta nos veículos de imprensa é destinado apenas para o hard news e assim, todos os dias, os veículos trazem as mesmas notícias. E o pior, com as informações rasas, sem apuração, e, muitas vezes, apenas reproduções ou traduções de notícias de agências internacionais.

Os veículos de comunicação que ainda conservam credibilidade, conquistada por sua secular atuação no mundo das notícias, tem agora uma chance de voltar a investir nos repórteres especiais, no jornalismo de verdade, na apuração detalhada e sem viés, com checagem, usando plataformas novas, interativas e que cativem as novas gerações.

O jornalismo de qualidade precisa ser resgatado. Segundo o editor do Washington Post, Martin Baron, “temos que continuar fazendo o que fazemos, jornalismo de qualidade. Contar boas histórias e divulgá-las”. Sem entrar em jogos de interesse, a busca pela verdade e por conteúdo de qualidade – essência do jornalismo - pode representar esta virada no jogo para os veículos de imprensa.

 

*Gerente da Approach Comunicação