Por Bianca G. Sallaberry

O papel da imprensa de Educação foi posto em pauta no recente Congresso da Jeduca, o #Jeduca2017, que teve sua primeira, e esperada, edição na última semana, em São Paulo. Foi um encontro muito importante para quem se dedica ao segmento, não apenas os profissionais de redação, mas todas as pontas capazes de tecer as notícias dessa complexa, e nem sempre bem interpretada, rede: assessorias de imprensa, grandes instituições, representantes do governo, educadores e estudantes. 

Um denominador comum unia a todos os que estavam ali para acompanhar as discussões: num país que precisa tanto de Educação, qualificar o debate é urgente. Por isso, melhorar a cobertura por meio de uma imprensa mais analítica refletirá diretamente no espaço dado pelos veículos, provocando gestores e estimulando o diálogo com a sociedade, que deve entender para cobrar não só a implementação, mas a continuidade das políticas educacionais.

Bom, um primeiro passo foi dado. Apesar do cenário desafiador, com a demissão de jornalistas e a desativação de editorias especializadas, todos entenderam que a crítica bem embasada, a fuga do generalismo, o estudo e a capacitação nos ajudará a ir mais longe, e fazer a Educação ganhar sua tão sonhada transversalidade nas editorias.

Trabalhar nesse segmento num país de incertezas exige mais do que simplesmente escrever. É preciso criatividade, curiosidade para explorar dados (e na Educação temos uma série de sinopses e estatísticas à disposição) — e atenção para equacioná-los —, e muita, muita sensibilidade, não apenas para ouvir, mas também para inovar na forma de narrar as histórias.

 

Na mesa sobre “Grandes reportagens de Educação” —  que foi mediada pelo jornalista José Brito, do Canal Futura, cliente da Approach —, o repórter Paulo Saldaña contou sobre sua matéria premiada de 2015, e que gerou uma série de desdobramentos a respeito dos repasses do Fies às instituições privadas de ensino superior. Dados que eram 100% públicos e, que a partir de uma leitura mais minuciosa, denunciaram que os gastos do governo federal aumentavam absurdamente, sem impactar no ritmo das matrículas. Uma denúncia grave. Não havia ilegalidade, mas imoralidade.

Educação gera click? Audiência? Vende jornal? Se a pauta é boa, como essa, claro que sim. Me chamou também a atenção uma fala do editor de cotidiano da Folha, Eduardo Scolese. Ele admite que o repórter de Educação é muito exigido, até porque precisa transitar em dois mundos. “Tem que ser de ar condicionado e pé de rua”, brincou, referindo-se ao fato de haver uma demanda pelos que têm esse talento duplo para interpretar tabelas, dados e legislação sem esquecer do lado humano — vai a campo, circula nas escolas, entra na vida das pessoas, e empresta os ouvidos, quiçá o ombro, a alunos, famílias e educadores muitas vezes negligenciados.

Brigar com o factual nem sempre é fácil, mas romper com esse complexo de patinho feio também depende das conexões que somos capazes de criar. E ouvir tantas ideias e debates fez crescer a vontade de colaborar para essa reinvenção, de exercitar a capacidade de questionar critérios absolutos, de buscar oportunidades e de ajudar a estimular não só a cobertura, mas também a produção de conteúdos originais, mesmo daqui, do lado das agências. Estamos juntos nessa briga.