Por Monique Cardoso, Diretora Executiva da Approach

Escrevo para levantar um ponto de atenção na nossa gestão e comunicação para sustentabilidade.

Saiu na Harvard Business Review este artigo do John Elkington, criador do conceito de Triple Bottom Line, em que ele comunica que está recolhendo o TBL ao estaleiro. Uma espécie de recall. Bem, na sexta-feira (07/10), na B3, aqui em São Paulo, Lorraine Smith, diretora na Volans, consultoria de Elkington, fez uma reflexão sobre o artigo e o que ele representa neste momento. Estive lá e divido alguns pontos com vocês.

A fala de Lorraine foi bastante inspiradora. Em resumo, ela nos convoca a abraçar a complexidade sem nos sentirmos sobrecarregados. Americana, Lorraine colabora em conselhos de sustentabilidade de grandes empresas no Brasil, como a Fibria. De acordo com sua interpretação, o conceito TBL não tem mais a potência de influenciar a indústria, e não é mais suficiente para dar conta do trabalho que temos – empresas, pessoas, instituições e governos, em transformar realidades com um mecanismo (processo ou lógica) que se direcionou a compensações e mitigações. Devemos, ela convoca, subir a régua e promover uma economia regenerativa. E o que é isso? Uma economia que dá mais para a sociedade do que tira.

Foram alguns puxões de orelha. Não de quem quer brigar, mas de quem quer nos ajudar no caminho de aprendermos com nossos erros – enquanto pessoas, empresas, governos, instituições. 

Primeiro, ela foi bem direta ao dizer que, no TBL, as corporações de fato só se preocupam em escolher um dos vértices para entregar resultados efetivos, e geralmente são resultados para os acionistas, não para as pessoas. Ou para o mundo. Como interpreto isso? Pode pegar mal ter essa parcialidade (ou incompletude, ou distorção) no lead do nosso discurso corporativo e, principalmente, na nossa narrativa de sustentabilidade.

Outra chamada foi ela dizer que parou de usar o termo "mudança climática" como default. Para Smith, isso é um eufemismo. Ela recomenda que se adote aquecimento global, com todas as letras, pois isso é o que efetivamente está acontecendo. Nomear as coisas, diz, é fundamental para reconhecê-las.

E por fim, questionou o modelo de framework dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que teria a mesma lógica, digamos, reparatória, sem dar o protagonismo a um movimento aspiracional, à busca por um mundo realmente melhor. No lugar do círculo fechado, propõe uma forma aberta, com mais imaginação, para representar as 17 metas. E representou isso com rosto de mulher. O que isso quer dizer? É algo para pensarmos.

Aron Belinky, do GVCes, também falou no encontro e um de seus focos foi justamente nos ODS, expondo uma comparação entre as entregas dos indicadores ESG – aqueles que os investidores efetivamente veem – e as 17 metas da Agenda 2030. Não adianta fazer um de/para e achar que se está no caminho de cumprir as metas com as quais a empresa se relaciona. A integração deve ser direta, ele diz. E precisamos saber medir isso com indicadores sólidos, transparentes e comparáveis.

O evento teve ainda a apresentação de uma pesquisa de Marco Saraiva, da Universidade de Columbia, a partir de um estudo sobre uso de BDAI (big data e inteligência artificial) na gestão da Sustentabilidade, publicado pelo Columbia Center on Sustainable Investment, mas sobre isso a gente fala outro dia. 

Nós, da Approach, seguimos ligados nas novidades acerca dos ODS, da Sustentabilidade e de como alinhar as práticas e narrativas das empresas a essas demandas. Se quiser trocar uma ideia sobre isso, estamos à disposição.