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Approach Cultural

17/3/2010

Bombaim, Rio de Janeiro


Não muito tempo atrás, quando comecei a trabalhar com a editora Nova Fronteira, Thrity Umrigar era simplesmente um nome com o qual, semana após semana, eu esbarrava ao passar os olhos pelas listas dos livros mais vendidos. Logo depois, no entanto, no momento em que entrei em contato com sua literatura para preparar o release do romance Um lugar para todos, esse nome passou a ter para mim um significado muito maior: Thrity, autora indiana radicada nos Estados Unidos, se tornou a dona de uma prosa sensível que, mesmo quando se concentrava em um universo restrito, era capaz de dialogar com leitores das mais diversas culturas.

 

Em 2009, durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, outra reviravolta aconteceu. Depois de dez dias de convivência, entre compromissos com a imprensa e passeios turísticos, Thrity já era como parte da minha família – meio como uma tia inteligente e atenciosa com quem eu poderia conversar sobre Hemingway e Bob Dylan durante uma macarronada dominical.

 

Assim que voltou a Cleveland, cidade do estado americano de Ohio em que mora há mais de duas décadas, Thrity escreveu um email: “Devo dizer que a ida ao Rio se tornou algo muito maior do que uma viagem de negócios. Foi uma conexão intensa com uma cidade e seus habitantes.” No texto abaixo, incluído na edição brasileira de seu novo livro, o memorialístico A primeira luz da manhã, que está sendo lançado pela Nova Fronteira, a autora detalha esse sentimento e afirma que, ao conhecer o Brasil, pôde entender por que suas obras fazem tanto sucesso por aqui.

 

por João Veiga

 

 

*****

 

 

Queridos leitores:

 

Visitei o lindo país de vocês — passando a maior parte do tempo no Rio — durante a XIV Bienal do Livro, em setembro de 2009, e me apaixonei imediatamente. O Rio me lembrou muito a minha amada Bombaim — com a ressalva de que o Rio é mais limpo, mais bonito, mais organizado e menos caótico. Mas os belos prédios ao longo da orla, o povo vibrante e animado que encontramos nas lojas e restaurantes, a amizade calorosa dos cariocas, tão simpáticos, e o intenso entusiasmo dos intelectuais, escritores e jornalistas que encontrei me trouxeram de volta lembranças da minha infância na terra natal. Esgotados os dez dias da minha estadia, quando uma amiga disse, meio brincando: “Uau, você está igualzinha a uma carioca”, meu peito inchou de orgulho. E na viagem de volta aos Estados Unidos, chorei no avião, sentindo que deixava para trás pessoas e um lugar que de repente se tornaram muito importantes para mim. O amor é algo estranho e mágico.

 

Onde quer que eu fosse, me pediam para comparar a Índia ao Brasil. No início fiquei chocada. O Brasil é tão maior, mais rico, sofisticado e próspero do que a Índia! Sim, estou a par das favelas e dos outros problemas sociais que atormentam o país, mas acreditem quando digo que só se descobre o que é pobreza de doer ao visitar a Índia.

 

Ainda assim, não paravam de chover perguntas sobre as semelhanças entre os dois países. E aos poucos me dei conta de que estavam corretos os que perguntavam – o povo de ambos os países partilham um ardor e uma generosidade de espírito bastante semelhantes. A abertura dos cariocas, a facilidade com que puxam conversa com estranhos, a disposição para ajudar, a hospitalidade enorme e automática, o amor apaixonado pela cidade, ainda que envolto em críticas e temperado com um certo desespero, tudo isso me fez lembrar os moradores de Bombaim. Ao contrário dos cidadãos de outras metrópoles, que se orgulham do próprio cansaço, do cinismo, da cautela, cariocas e bombaítas partilham o mesmo prazer de viver, a mesma exuberância. E não tenho palavras para dizer quanto isso me aqueceu o coração.

 

Entendi, finalmente, por que meus livros fazem sucesso no Brasil. A diferença de classes, a desigualdade entre os sexos, o papel da família, a busca de um lar e da sensação de fazer parte de um grupo e a procura do amor são questões que encontram eco na alma brasileira. Eu achava que escrevia romances ambientados na minha Índia natal. Descobri que escrevia romances que podiam ser transplantados para o solo brasileiro. E essa descoberta me encheu de alegria. Não existe recompensa maior para um escritor do que saber que a sua história, ambientada em um determinado cenário ou lugar, é, na verdade, universal, capaz de tocar os corações de quem vive a quilômetros de distância e fazer com que essas pessoas examinem a própria vida usando como pano de fundo essa história.

 

E aqui estou, de volta ao Brasil (por meio das minhas memórias), contando a vocês a história mais pessoal de todas — a minha. Alguns anos atrás, eu quis saber por que me tornei escritora. Pensei na minha infância — em seus muitos privilégios e suas muitas dificuldades; na quantidade de pessoas que conheci e como elas afetaram a minha vida; nas várias experiências que me empurraram para esse ofício. Achei que na história de uma criança de classe média que cresceu fazendo parte de uma minoria étnica numa cidade predominantemente hindu devia haver alguma experiência universal que outros pudessem partilhar. Também me deu vontade de falar sobre a Bombaim da década de 1970 — um lugar vibrante, secular, uma cidade que ainda desconhecia o trauma da rivalidade religiosa e social que logo vivenciaria. Embora não tivesse uma magnífica imagem do Cristo Redentor reinando sobre ela, a Bombaim de então ainda parecia uma cidade especial, abençoada, protegida contra seus próprios demônios, uma genuína mistura de raças. Me deu vontade de mostrar como uma bombaíta — eu — e a cidade atingiram juntas a maioridade.

 

Por isso escrevi as minhas memórias. Em parte elas são um tributo aos muitos adultos que por sorte tive como família — meu pai sonhador, meu tio amoroso, minhas tias protetoras e, sim, até a minha mãe perturbada, que me legou seu amor pela língua e pela gramática.

 

Suponho que muitos de vocês conseguirão se identificar com os dramas da minha família, pois existe uma coisa que todos nós, humanos, partilhamos: os problemas da vida familiar.

 

Quero encerrar com uma imagem que guardarei para sempre da minha estadia no Brasil. Fomos visitar a estátua do Cristo num final de tarde, em pleno pôr do sol. Por um feliz acaso esbarramos num casamento que se desenrolava aos pés do Cristo. A noiva estava linda e radiante. O noivo, idem. E ele estava numa cadeira de rodas. Fiquei pensando em como devia ter sido difícil percorrer aqueles últimos metros numa cadeira de rodas e que tipo de fé e determinação seria preciso para isso.

 

Não sou tão corajosa quanto aquele homem na cadeira de rodas provavelmente é, mas também convivo com fé e determinação — fé no poder que as palavras têm de curar, redimir, unir, e determinação para contar histórias. Quando a vida se mostra inexprimivelmente difícil e triste, alguns acendem velas, outros procuram uma igreja, mas há outros que se voltam para a magia dos livros. Agradeço a vocês por entrarem no mundo deste livro. Embora os acontecimentos aqui descritos estejam muito distantes no tempo e no espaço, espero que eles descrevam também um pouquinho da vida de vocês.

 

Thrity Umrigar


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